A Diocese de Goiás celebra neste mês de julho um marco histórico: os 200 anos de sua criação. A antiga Prelazia de Goiás foi elevada à categoria de diocese pela bula Sollicita Catholici Gregis Cura, em 15 de julho de 1826. Sua trajetória, porém, começou muito antes e se confunde com a própria história da Cidade de Goiás.
No ano de sua criação, a Diocese de Goiás tinha um território de 617.937 km², quase o tamanho da França, e correspondia aos atuais estados de Goiás, Tocantins, Distrito Federal e a região conhecida como Triângulo Mineiro, em Minas Gerais.
Em dois séculos de história, seu vasto território original deu origem a várias igrejas e até a outras cátedras episcopais, consolidando-se como um marco de fé e resistência no coração do Brasil. No primeiro quartel do século XX, foram criadas duas novas dioceses, que se desmembraram do território da Diocese de Goiás. Em 1907, o papa Pio X criou a Diocese de Uberaba e, em 1915, o papa Bento XV criou a Diocese de Porto Nacional.
A origem da organização eclesiástica em território goiano remonta a 1745, quando o papa Bento XIV criou a Prelazia de Goiás por meio da bula Candor Lucis Aeternae (Candor da Luz Eterna). Apesar da criação da prelazia, somente em 1782 foi nomeado o primeiro prelado, Dom Frei Vicente do Espírito Santo, que nunca chegou a tomar posse.
Seu sucessor, Dom José Nicolau de Azevedo Coutinho Gentil, também não assumiu o cargo, renunciando à missão após ser nomeado deão da Capela Real da Vila de Viçosa, em Portugal. O terceiro prelado, Dom Vicente Alexandre de Tovar, foi o primeiro a tomar posse, ainda que por procuração, representado pelo padre Vicente Ferreira Brandão. O quarto prelado foi Dom Antônio Rodrigues de Aguiar, natural do Rio de Janeiro, nomeado pela Carta Régia de 11 de dezembro de 1810. Também tomou posse por procuração, em 1811.
O quinto prelado, Dom Francisco Ferreira de Azevedo, natural de Salvador (BA), foi designado em 1818 e tomou posse por procuração em 1819. Em 21 de outubro de 1824, tornou-se o primeiro bispo a chegar efetivamente a Goiás. Cego, conheceu sua diocese pela fé, pela escuta e pelo contato com seu povo. Como registram os historiadores, ouviu e sentiu suas ovelhas, mas jamais pôde vê-las. Foi durante seu episcopado que a Prelazia de Goiás foi elevada à condição de diocese. Dom Francisco tornou-se, assim, o primeiro bispo da Diocese de Goiás.
A sucessão episcopal
Após o governo de Dom Francisco Ferreira de Azevedo, a Diocese de Goiás foi conduzida pelos seguintes bispos: Dom Domingos Quirino de Souza (1861-1863), Dom Joaquim Gonçalves de Azevedo (1864-1876), Dom Antônio Maria Corrêa de Sá e Benevides (1876), Dom Cláudio José Gonçalves Ponce de Leão (1881-1890), Dom Joaquim Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti (1890), nomeado, mas não empossado; Dom Eduardo Duarte Silva (1891-1897) e Dom Prudêncio Gomes da Silva (1907-1921).
A experiência singular da Arquidiocese de Goiás
A história da Igreja em Goiás registra um caso raro na administração da Igreja Católica. Em 18 de novembro de 1932, o papa Pio XI elevou a Diocese de Sant’Ana de Goiás à condição de Arquidiocese, sendo Dom Emanuel o primeiro arcebispo da nova circunscrição eclesiástica, que até o momento estava subordinada à Arquidiocese de Mariana. Assim, Dom Emanuel tomou posse como o primeiro arcebispo, em 16 de abril de 1933, na Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte, na Cidade de Goiás, que até então servia de catedral provisória.
Essa nomeação eclesiástica refletia o prestígio angariado por Dom Emanuel junto à Santa Sé, em Roma, em virtude dos seus trabalhos já realizados em prol da igreja. Além disso, há outro fator interessante, o arcebispo de Mariana, Dom Helvécio, era seu irmão, e foi ele quem fez o pedido ao Papa para esse desmembramento e elevação da condição administrativa.
Dom Emanuel foi o primeiro e único arcebispo de Goiás, pois, com a criação de Goiânia, houve uma reconfiguração das circunscrições eclesiásticas do estado, passando o título aos arcebispos da Arquidiocese de Goiânia, criada em 1956, onde estava a nova capital.
No dia 26 de março de 1956, o papa Pio XII extinguiu a Arquidiocese de Goiás. Na mesma data, foi criada uma nova Diocese de Goiás, formada a partir de territórios da antiga arquidiocese e da extinta Prelazia de Bananal.
A nova diocese teve como primeiro bispo Dom Cândido Bento Maria Penso (1956-1959). Depois dele vieram Dom Abel Ribeiro Camelo (1960-1966), Dom Tomás Balduíno e Dom Eugênio Rixen (1999-2020).
Em 13 de setembro de 2020, tomou posse o atual bispo diocesano, Dom Jeová Elias Ferreira.
A Diocese de Goiás limita-se com a Arquidiocese de Goiânia e com as dioceses de Rubiataba, Mozarlândia, Anápolis, Uruaçu, São Luiz de Montes Belos, no estado de Goiás, e Barra do Garças, já no estado do Mato Grosso.
Prelazia, diocese e arquidiocese: qual a diferença?
A Igreja Católica é formada por comunidades espalhadas pelo mundo, organizadas em diferentes circunscrições eclesiásticas para facilitar a evangelização e a administração pastoral.
A prelazia territorial costuma ser criada em regiões onde a estrutura eclesiástica ainda está em formação. Geralmente possui menor número de fiéis, de paróquias e de sacerdotes, sendo confiada à direção de um prelado.
Com o crescimento da comunidade católica e o fortalecimento da organização pastoral, a Santa Sé pode elevar uma prelazia à condição de diocese. A diocese é uma circunscrição mais estruturada, governada por um bispo e responsável por coordenar a vida religiosa de uma determinada região.
Já a arquidiocese possui maior relevância administrativa e pastoral, sendo normalmente sede de uma província eclesiástica que reúne várias dioceses. Seu governo cabe a um arcebispo.
Atualmente, a Igreja Católica no Brasil conta com 280 circunscrições eclesiásticas. São 47 arquidioceses, 218 dioceses e 7 prelazias territoriais, além de estruturas destinadas aos fiéis dos ritos orientais e de outras organizações específicas reconhecidas pela Santa Sé.
Embora diferentes em sua organização territorial e administrativa, todas possuem a mesma missão: anunciar o Evangelho e servir ao povo de Deus.
Ao completar dois séculos de existência, a Diocese de Goiás celebra não apenas uma data histórica, mas uma trajetória de fé, evangelização e serviço que acompanha a formação cultural, social e espiritual do povo goiano desde os primórdios da ocupação do território.




