Um dos pioneiros do punk rock brasileiro, Clemente Nascimento é a principal atração do primeiro dia da terceira edição do Vila Boa Rock, nesta sexta-feira (18), na Rua do Encontro, na cidade de Goiás. Antes de subir ao palco, o músico participou de uma entrevista na Rádio Nova Fogaréu, na qual relembrou o início de sua trajetória, analisou as transformações da cena independente e falou sobre a permanência do rock ao longo das décadas.
Clemente começou a tocar em 1978, ainda adolescente, na banda Restos de Nada, considerada uma das precursoras do punk nacional. Depois, integrou a Condutores de Cadáver e, em 1981, fundou a banda Inocentes, da qual continua fazendo parte. Há mais de duas décadas, também integra a Plebe Rude.
Ao recordar o surgimento do movimento punk em uma época sem internet e redes sociais, o artista destacou que as conexões entre as bandas eram estabelecidas principalmente por correspondência.
“A gente se correspondia com bandas punks do mundo inteiro: da Polônia, Suécia, Itália, Alemanha e Estados Unidos. Era uma cena mundial, com várias bandas independentes. Foi por isso que grupos como Cólera, Inocentes e Ratos de Porão começaram a fazer turnês fora do país.”
Segundo Clemente, como as grandes gravadoras inicialmente não demonstravam interesse pelo gênero, os próprios músicos construíram uma rede independente de divulgação, troca de discos e organização de apresentações. Ele também ressaltou que o punk surgido em São Paulo possuía uma forte ligação com as periferias.
“Não existia hip-hop, não existia rap e não existia um monte de coisas que existem hoje. O movimento punk era a linguagem da molecada da periferia.”
O músico também falou sobre a atualidade das canções de protesto lançadas há cerca de quatro décadas. Para ele, ouvir essas músicas sendo compreendidas pelas novas gerações provoca um sentimento contraditório.
“É um sentimento ambíguo. Por um lado, é legal perceber que você fez uma música que continua atual, porque várias canções não sobreviveram ao tempo. Por outro, isso acontece porque as coisas não mudaram tanto no país.”
“O rock saiu da grande mídia, mas não morreu”
Durante a entrevista, Clemente comentou as previsões recorrentes sobre o suposto desaparecimento do rock. Ele lembrou que o punk já era declarado morto no fim da década de 1970, justamente quando o movimento brasileiro começava a ganhar força.
“Em 1979, os caras já declaravam o punk morto. A gente dizia: ‘Se o punk rock morreu, ainda estamos morrendo’. E continuamos.”
Na avaliação do artista, o rock apenas deixou de ocupar o mesmo espaço que possuía nos grandes meios de comunicação durante os anos 1980. Fora da música de massa, entretanto, segue mobilizando artistas, produtores e públicos em diferentes regiões.
“O rock saiu da grande mídia. Não é mais a música de massa que era na década de 1980 e não está mais na moda, para o bem e para o mal. Mas existe muita banda nova surgindo e produzindo música boa. Se vai fazer sucesso ou não, eu não sei. Isso não me interessa. A gente gosta é de rock.”
Clemente também apresenta um programa na rádio web Antena Zero, de São Paulo, no qual divulga novos nomes do rock brasileiro. Para ele, a circulação de bandas, discos e pequenos eventos mantém viva a mesma lógica colaborativa que marcou o início do punk.
A força dos festivais independentes foi igualmente ressaltada pelo guitarrista Rodolfo Santos, da banda goiana Bizarrones, que também participou da entrevista. Ele destacou a importância de eventos como o Vila Boa Rock para criar oportunidades aos artistas locais e promover o encontro entre diferentes gerações.
Clemente reforçou essa percepção ao afirmar que a música não precisa estar nos grandes festivais ou nos principais veículos de comunicação para demonstrar vitalidade. Na avaliação do músico, é justamente nos pequenos palcos, nas casas independentes e nos eventos realizados de maneira coletiva que o rock continua acontecendo.
Quase cinco décadas de estrada
Aos 63 anos e com uma trajetória iniciada há 48 anos, Clemente também falou com bom humor sobre o envelhecimento da geração que ajudou a fundar o punk brasileiro. Segundo ele, a experiência trouxe melhores condições técnicas, mais consciência artística e novos desafios para manter no palco a energia dos primeiros anos.
“Você precisa ter energia, pelo menos alguma coisa próxima do que fazia antes. Mas hoje os shows são melhores, os equipamentos são melhores e, ao mesmo tempo, existe um monte de banda nova surgindo. Isso é muito legal.”
Ao longo da carreira, o músico dividiu palcos com nomes como Ramones, Sex Pistols, Bad Religion, Pennywise e Guns N’ Roses. Apesar das grandes apresentações, ele mantém uma defesa enfática da música independente e do contato direto entre artistas e público.
A passagem pela cidade de Goiás também chamou sua atenção pela diversidade da cena cultural. Durante a conversa, Clemente demonstrou entusiasmo ao conhecer melhor a programação musical do município e o funcionamento da Rua do Encontro, que reúne gastronomia, convivência e apresentações artísticas.
O primeiro dia do Vila Boa Rock começa às 19 horas desta sexta-feira (18), na Rua do Encontro. A terceira edição do festival reúne bandas locais, regionais e nacionais, com entrada gratuita. A programação continua no sábado (19).



