Há 136 anos, no dia 20 de agosto, nascia Ana Lins dos Guimarães Peixoto, que se eternizaria como Cora Coralina, a poetisa vilaboense mais conhecida do Brasil.
Sua trajetória é peculiar. Cora cursou apenas até a terceira série do ensino primário e publicou seu primeiro livro aos 75 anos. Enquanto construía versos que atravessariam gerações, encontrou na arte de fazer doces o seu ganha-pão.
Chegou a ser convidada para participar da Semana de Arte Moderna de 1922, mas não pôde se juntar aos modernistas devido às limitações impostas pelo marido.
Sua poética é marcada pela escrita do cotidiano, pelas miudezas da vida e por uma delicadeza acompanhada da sabedoria de quem viveu intensamente e soube observar, literalmente, cada “pedra” do caminho.
Seus versos conquistaram leitores mundo afora e sua obra continua sendo cada vez mais difundida. A casa onde nasceu, às margens do Rio Vermelho, hoje abriga o Museu Casa de Cora Coralina, um dos principais símbolos culturais da cidade de Goiás.
Para celebrar a vida e a obra de Cora Coralina, selecionamos três de seus poemas:
Conclusões de Aninha
Estavam ali parados. Marido e mulher.
Esperavam o carro. E foi que veio aquela da roça
tímida, humilde, sofrida.
Contou que o fogo, lá longe, tinha queimado seu rancho,
e tudo que tinha dentro.
Estava ali no comércio pedindo um auxílio para levantar
novo rancho e comprar suas pobrezinhas.
O homem ouviu. Abriu a carteira tirou uma cédula,
entregou sem palavra.
A mulher ouviu. Perguntou, indagou, especulou, aconselhou,
se comoveu e disse que Nossa Senhora havia de ajudar
E não abriu a bolsa.
Qual dos dois ajudou mais?
Aninha e Suas Pedras
Não te deixes destruir…
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.
Mulher da Vida
Mulher da Vida,
Minha irmã.
De todos os tempos.
De todos os povos.
De todas as latitudes.
Ela vem do fundo imemorial das idades
e carrega a carga pesada
dos mais torpes sinônimos,
apelidos e ápodos:
Mulher da zona,
Mulher da rua,
Mulher perdida,
Mulher à toa.
Mulher da vida,
Minha irmã.



