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“Mulheres têm rompido o silêncio diante da violência psicológica”, diz comandante do 2º Batalhão Maria da Penha, Patrícia Botelho

A frase é da comandante do 2º Batalhão Maria da Penha, major Patrícia Botelho, que em entrevista à Rádio Nova Fogaréu analisou os tipos de violência mais comuns na cidade de Goiás, os principais sinais de alerta para as mulheres e as ações de prevenção realizadas no município. Confira trechos da entrevista:

Nova Fogaréu: Como a senhora analisa o perfil da violência contra a mulher na cidade de Goiás?

Major Patrícia Botelho: É difícil traçar um perfil único, já que a violência possui diversas características. Na cidade de Goiás, entre os tipos de ocorrências registradas, poderíamos destacar a violência psicológica, que é uma violência velada, que humilha, desmerece o valor da mulher e causa grande sofrimento emocional dentro do relacionamento. Por outro lado, as mulheres têm reconhecido mais cedo os sinais dessa violência e as denúncias refletem um avanço na conscientização. Em segundo lugar aparecem os casos de ameaça. Hoje temos um número significativo de ameaças registradas. Em terceiro lugar está a lesão corporal.

Nova Fogaréu: Quais são os principais sinais de alerta para que as mulheres percebam que um relacionamento pode estar se tornando perigoso?

Major Patrícia Botelho: Muitas vezes a mulher está tão envolvida na situação que não percebe sinais simples de alerta. É sempre importante lembrar que relacionamentos saudáveis são construídos com respeito, confiança e liberdade. Porém, muitas vezes a violência começa de forma silenciosa, disfarçada de cuidado ou de amor.

Quando alguém controla com ciúmes, dizendo com quem você pode falar ou o que pode postar, isso não é amor, é insegurança. Quando exige senha do celular, vigia suas redes sociais ou quer saber cada mensagem que você recebe, isso não é intimidade, é invasão.

Outro sinal de alerta é o isolamento. Quem gosta de você respeita os vínculos que te fazem bem. Humilhações, piadas ofensivas, comparações e críticas constantes também machucam. Quem ama não diminui, não ridiculariza e não faz o outro se sentir menor.

A chantagem emocional também é perigosa. Frases como “se você me deixar, não sei o que faço” ou “a culpa é sua se eu ficar mal” são formas de pressão, não de amor.

Muitas vezes também existe um ciclo: briga, agressividade, pedido de desculpas e promessa de mudança. Mas desculpa sem mudança não resolve o problema. E é importante lembrar: ninguém tem o direito de ultrapassar seus limites. O “não” é uma frase completa e deve ser respeitada.

Nova Fogaréu: Como a senhora analisa o trabalho realizado com os homens que cometeram agressões contra mulheres na cidade?

Major Patrícia Botelho: Os grupos reflexivos e as rodas de conversa voltadas para os homens são fundamentais. Os homens não devem ser vistos apenas como monstros, mas como pessoas que muitas vezes também carregam problemas emocionais e um histórico de violência no contexto em que viveram, reproduzindo comportamentos que foram naturalizados.

Neste trabalho, o homem participa de um acompanhamento multiprofissional, com psicólogo, advogado e assistente social. Ao longo de 12 encontros, buscamos desmistificar e desconstruir dentro dele essa cultura de violência que, em algum momento, foi naturalizada. Acredito que ações como essas precisam ser cada vez mais fortalecidas.

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