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Entrevista Dom Jeová Elias “A fé, em tempos de crise, é aquela que nos dá coragem”

A frase é do bispo da Diocese de Goiás, Dom Jeová Elias, que, em entrevista ao Jornal Nova Fogaréu, explicou as ações concretas em prol da campanha da fraternidade deste ano, que aborda o tema da moradia. Ele também falou do papel das tradições na manutenção da fé e de como manter a esperança em tempos de crise. Veja a conversa a seguir: 

 

Jornal Nova Fogaréu: Como o tema Fraternidade e Moradia foi vivido na Cidade de Goiás durante estes dias de preparação para a Páscoa? 

Dom Jeová Elias: O tema da Campanha da Fraternidade 2026, “Fraternidade e Moradia”, foi vivido em nossa diocese com grande intensidade, perpassando as mais diversas atividades pastorais que realizamos ao longo deste tempo quaresmal. Esteve presente nas catequeses, nas pregações, nos círculos bíblicos, nas vias-sacras e em inúmeras celebrações comunitárias. Dentre tantas iniciativas, merecem especial destaque o retiro dos agentes de pastorais, padres, religiosas e leigos, que aprofundou o tema à luz da Palavra de Deus e da realidade de nossa gente. Também foram significativos os retiros realizados nas paróquias e as diversas formações oferecidas às lideranças pastorais. Além disso, é importante registrar a abordagem do tema em três edições do programa “Companheiros e Companheiras” da Rádio 13 de Maio, que contribuiu para levar a reflexão sobre a moradia digna para todas as comunidades.

JNF: Quais foram as ações concretas que foram realizadas durante a Campanha da Fraternidade?

DJE: A Campanha da Fraternidade, como sabemos, mobiliza toda a Igreja no Brasil e, em nossa diocese, as ações concretas acontecem nas realidades mais próximas do povo. São tantas as comunidades, paróquias, áreas pastorais e movimentos que não tenho como enumerar todas as iniciativas, pois cada grupo, à sua maneira, tem procurado viver o tema “Fraternidade e Moradia” em gestos de acolhida, solidariedade e escuta dos que mais sofrem com a falta de uma casa digna. A Campanha ainda está em andamento, e o grande gesto concreto de toda a Igreja no Brasil será a Coleta do Fundo Nacional da Solidariedade, que acontecerá no Domingo de Ramos. Os recursos arrecadados são destinados à promoção de projetos sociais em todo o país, especialmente aqueles voltados ao tema da moradia. A CNBB recebe um percentual dessa coleta e os distribui para projetos em diversas regiões do Brasil, inclusive nossa diocese já foi beneficiada ao longo dos anos com iniciativas que têm feito a diferença na vida de muitas famílias.

JNF: De que forma a manutenção das tradições contribui para a fé católica?

DJE: A tradição, para nós católicos, não é simplesmente a preservação de costumes antigos ou de práticas culturais. A tradição é viva; ela nos liga à experiência dos apóstolos, à transmissão da fé ao longo dos séculos e à própria ação do Espírito Santo que guia a Igreja. O papa Francisco gostava de comparar a tradição a uma árvore que cresce: ela tem raízes profundas, mas está sempre se desenvolvendo, produzindo novos frutos. Assim é a nossa fé: fiel às origens, mas aberta ao hoje e aos desafios do mundo. Aqui em Goiás, essa dimensão é ainda mais significativa, porque nossa cidade é marcada por uma fé que se expressa de modo belo e profundo nas tradições religiosas. Nesta Semana Santa, somos agraciados com celebrações que encantam a comunidade e atraem muitos fiéis de diversas regiões da diocese e até de outras partes do país. A Procissão do Fogaréu, o Sermão das Sete Palavras, a Procissão do Senhor Morto, o Canto do Perdão… Tudo isso não é mero folclore, mas expressão viva de uma fé que se encarna na cultura e na história do nosso povo. Manter essas tradições não é um saudosismo vazio, mas um modo de reavivar a memória do povo, educar as novas gerações na fé e testemunhar que o Evangelho se torna presente no tempo e no espaço. A tradição bem vivida nos ajuda a permanecer firmes no essencial, ao mesmo tempo em que nos abre ao dinamismo da missão. Por isso, na Igreja Católica, a tradição caminha sempre junto com a Palavra de Deus e o Magistério da Igreja, formando um só tesouro da fé.

JNF: Em tempos de crise, qual o papel da fé na vida das pessoas?

DJE: A fé, em tempos de crise, não se apresenta como uma anestesia para a dor, como se fosse uma fuga da realidade ou um analgésico espiritual que nos torna imunes ao sofrimento. Pelo contrário, a fé verdadeira é aquela que nos dá coragem para enfrentar as dificuldades de cabeça erguida, com realismo e esperança. Ela não elimina as provações, mas nos ensina a vencê-las. O filósofo Alain de Botton, embora ateu, em seu livro Religião para Ateus, reconhece o valor da fé em comunidade como um recurso precioso para lidar com a dor e o sofrimento. Ele percebe que as tradições religiosas souberam criar rituais, espaços de acolhimento e uma linguagem capaz de dar sustentação às pessoas nos momentos mais difíceis da vida. Há uma sabedoria na fé vivida em comunidade que nos ajuda a não enfrentar o sofrimento sozinhos. Nós, cristãos católicos, estamos vivenciando, nestes dias, o Mistério Pascal: a paixão, a morte, mas sobretudo a vitória da ressurreição. A fé não nos promete uma vida sem cruzes, mas nos assegura que nenhuma cruz é definitiva. O papa Francisco nos recorda, na Evangelii Gaudium, que “o triunfo cristão é sempre uma cruz, mas cruz que é, simultaneamente, estandarte de vitória, que se empunha com ternura batalhadora contra as investidas do mal” (n. 85). É essa certeza que nos sustenta: a dor não tem a última palavra; a última palavra é sempre a vida nova que brota do sepulcro vazio.

JNF: Qual palavra deixa para a população e turistas que vêm à Semana Santa na Cidade de Goiás?

DJE: A todos que chegam à nossa querida Cidade de Goiás, desejo as boas-vindas. Que possam experimentar e vivenciar a beleza das nossas tradições religiosas, que celebramos com tanta fé e amor ao longo desta Semana Santa. Convido cada um a se deixar envolver pelo Mistério Pascal: a paixão, a morte e a ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. Que esse mistério não seja apenas um espetáculo externo, mas penetre a vida pessoal e social de cada um, trazendo luz, esperança e sentido para os desafios do dia a dia. Que, ao retornarem às suas casas, levem no coração a alegria do encontro com Cristo vivo e a disposição renovada para construir um mundo mais fraterno, solidário e cheio de esperança. Santa e Feliz Páscoa a todos!

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