Maio é emblemático para a literatura brasileira. É o mês no qual nasceu e morreu o autor do clássico da literatura nacional “Tropas e Boiadas”: Hugo de Carvalho Ramos. O escritor, considerado precursor da escrita regional, nasceu há 131 anos, no dia 21 de maio, e morreu há 105 anos, no dia 12 do mesmo mês, em 1921.
Após mais de cem anos de sua morte, a literatura de Hugo de Carvalho Ramos impressiona. Um dos pontos mais elogiados pelos críticos é a forma como conseguia tocar em pontos sensíveis da época com modernidade, ao mesmo tempo em que sua literatura caminhava com propriedade pelo sertão goiano.
Embora sem tanto reconhecimento quanto outros nomes da literatura brasileira, o legado deste escritor permanece vivo para os que têm contato com sua escrita, que continua inspirando autores da atualidade. Um exemplo é a escritora, poetisa e cronista Lêda Selma, atual presidente da Academia Goiana de Letras (AGL).
Ela conta, em entrevista ao Jornal Nova Fogaréu, que ocupa com orgulho a Cadeira n° 14, na AGL, cujo patrono é Hugo de Carvalho Ramos. E, mesmo que sua obra em prosa não seja regionalista, em vários contos a simplicidade e postura do homem do campo compõe a vida de certos personagens. E, nestes momentos, sempre recorre a Hugo.
“Sua obra fez-me entender o cerne e vertentes do regionalismo, despertar para a criação de personagens sertanejos, interioranos, não sofridos, mas engraçados, alguns, patuscos, entender a riqueza do coloquial de suas falas e perceber a importância memorial da linguagem do sertão e do sertanejo.
Para Lêda, sua obra-prima “Tropas e boiadas”, notabilizou o regionalismo construído sob o timbre de uma identidade consistente e universalizada, que transpõe a superficialidade. “Não se trata de uma obra notável apenas da literatura goiana, mas, sim, de extrema importância na literatura regionalista brasileira, pois exerceu influência em escritores de nomeada, qual Guimarães Rosa.”
Outro entusiasta da obra de Hugo é o cineasta vilaboense Lázaro Ribeiro. Em 2017, lançou o curta “Hugo”, uma cinebiografia que traz uma pesquisa aprofundada sobre o autor e feita em conjunto com o pesquisador Jadson Borges. Agora, ele está escrevendo uma biografia do escritor que pretende lançar ano que vem.
“A história de Hugo é um enigma, que merece ser decifrado, estudado, pesquisado por ter sido um dos precursores do regionalismo brasileiro. Foi um jovem que escreveu seus primeiros contos ainda na adolescência em uma capital isolada no sertão de Goiás”, argumenta Lázaro.
Biografia
Hugo trazia a literatura nas veias. Era filho do juiz Manoel Lopes de Carvalho Ramos, autor do poema épico “Goianya”, cujo título mais tarde serviria de inspiração para batizar a capital do estado.
Na infância e adolescência passadas na cidade de Goiás – ele morava na Praça do Chafariz -, tornou-se frequentador assíduo do Gabinete Literário Goyano e começou a escrever quando tinha 15 anos. Um de seus primeiros contos foi “O Saci”.
Depois da morte do pai, aos 17 anos, mudou-se para o Rio de Janeiro e ingressou no curso de Direito. Na, até então capital federal, o escritor publicou, aos 22 anos, pela Revista dos Tribunais, a primeira edição de “Tropas e Boiadas”, em 1917, que foi sucesso de crítica no circuito literário do Rio de Janeiro.
Com esta obra, o escritor consagrou um estilo diferente, que tocava nos pontos frágeis da sociedade em uma mistura de modernidade e tradição. Colecionou elogios de nomes importantes para a cultura da época, como João do Rio, mas era infeliz. Hugo morreu e cogita-se que, na época, estava produzindo um livro de poesia. Após sua morte, “Tropas e Boiadas” foi reeditada um ano depois por Monteiro Lobato.
Hugo saiu de cena, claro, como um dos grandes, porém deixou nos seus leitores a eterna dúvida de como seria o seu olhar aguçado e sensível sobre outros aspectos de sua antiga, mas moderna, Vila Boa. Que outras realidades este prosador mostraria?



