Com o avanço de políticas públicas destinadas aos povos originários, como as cotas, a presença indígena tem se tornado cada vez mais significativa nas universidades da cidade de Goiás. Atualmente, vivem no município estudantes de diversas etnias, como os Atikum-Umã, do sertão de Pernambuco, e os Karajá, de Aruanã.
Grande parte desses estudantes chega à cidade para cursar Educação do Campo (Ledoc), na Universidade Federal de Goiás (UFG). Muitos têm como objetivo retornar às suas comunidades após a formação, levando os conhecimentos adquiridos para fortalecer suas realidades locais.
No entanto, a presença indígena no ambiente urbano e universitário traz desafios importantes, tanto no campo pedagógico quanto nas questões de acolhimento estrutural e cultural.
“São povos com diversidade de línguas e culturas e que, ao chegar aqui, não deixam de ser quem são. Isso traz desafios de ordem material, como o acesso à moradia e alimentação; de ordem pedagógica, já que os currículos estão descontextualizados da realidade de muitos estudantes; e também desafios de ordem cultural”, explica.
Apesar das dificuldades, algumas iniciativas buscam melhorar esse acolhimento. No município, há avanços na oferta de serviços de saúde e cursos de línguas. Na UFG, o modelo pedagógico alternado permite que o estudante intercale períodos na universidade com atividades em suas comunidades de origem.
“Temos que entender que a inclusão não se resume à presença dos povos indígenas na universidade. É preciso criar formas reais de acolhimento. A cidade ainda enfrenta o racismo estrutural, e o choque cultural impacta diretamente a saúde mental desses estudantes. Há também a questão social: embora existam bolsas, muitos vêm com a família, e o Restaurante Universitário, por exemplo, não atende a todos”, acrescenta.
“Bravos?”
Há cerca de um ano e meio na cidade de Goiás, onde cursa Educação do Campo, Timari Karajá relata que enfrentou diversos desafios para permanecer na cidade.
Ele conta que saiu de sua aldeia, em Aruanã, com o sonho de se tornar professor, assim como sua irmã, e contribuir para a preservação da cultura de seu povo. No entanto, ao chegar, deparou-se com algo inesperado: a solidão.
“Não tinha ninguém para conversar e acho que entrei quase em estado depressivo. Depois, meu primo chegou, e começamos a ir à Carioca para banhar e jogar bola. Assim, fui me sentindo melhor. Sou uma pessoa mais reservada para fazer amizades, e ainda há quem nos olhe e ache que somos bravos”, revela.
Já Gabriel Atikum, da etnia Atikum-Umã, veio à cidade para realizar o sonho de cursar Direito e afirma que o preconceito também foi um dos principais obstáculos.
“Sofro ainda certo preconceito linguístico, por ser nordestino”, destaca.



